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Todos nós vivemos de padrões.

O cabelo liso é um padrão exigido pela nossa sociedade, pois é ele que dita a regra. Mulher de cabelo crespo é desleixada, para trabalhar em uma empresa você tem que ter “boa aparência” Mulheres negras de cabelos crespos não tem boa aparência…

Desde crianças, nós mulheres negras e cacheadas e crespas ouvimos que nascemos com cabelo “ruim”. Esses dias mesmo minha mãe comentou que ela tem cabelo ruim, cabelo de “bucha”. Disse a ela que não existe isso de cabelo ruim, que cada cabelo é único. Mas ela não se conforma.

Eu cresci com a idéia de que meu cabelo era ruim e que precisava ser concertado. Minha mãe costumava dizer que eu nasci toda torta.

Nas revistas, na TV…

Todas as mulheres tinham cabelos lisos.

As meninas mais queridas pelos professores, mais admirada por todos tinham cabelos lisos…

Eu queria ser amada e admirada também.

Minha mãe queria me “concertar”, porque eu nasci torta e deformada com esse cabelo de sovaco!

Uma música que fez muito sucesso quando eu era criança:

“Nega de cabelo duro, qual o pente que te penteia…”

Cantavam para mim essa música. E eu ficava indignada!

Eu não era negra! Não tinha cabelo duro!

Mas eu era e sou negra sim! E não tenho cabelo duro não! Meu cabelo é macio, meu cabelo é lindo!

Mas minha mãe deu um jeito de me endireitar… Ela mesma fazia isso, tinha feito um curso de cabeleireira.

Essa fase foi a do WELLIN… Quem viveu década de 70 e 80 vai se recordar do cheiro de esgoto desse produto. Minha mãe passava em meus cabelos, ficava liso e maravilhoso e minha concepção. Mas meu cabelo fedia esgoto por semanas!

Às vezes ouvia comentários dentro do ônibus: “nossa! Ta fedendo esgoto aqui!” e eu sabia que era meu cabelo! Que vergonha, que tortura!

E assim eu fui crescendo…

Cresci negando toda minha história. Cresci oprimindo meus cabelos…

Por um momento eu deixei meu cabelo natural… Foi uma tortura. Olhavam para mim e perguntavam por que eu não fazia um relaxamento, sentia os olhares de reprovação.

Eu estava torta novamente, errada, pixaim, nega de cabelo duro.

Voltei a me endireitar.

Voltei a alisar meus cabelos.

Opressão de meus fios continuou por vários anos.

Oprimi meus cabelos para agradar a sociedade, para me adequar a um padrão social… E o pior de tudo, oprimi meus cabelos para agradar a um homem!

Alem de tudo tem a questão do machismo: Estamos em um mundo patriarcal. As mulheres devem seguir determinados padrões para serem consideradas “femininas”, cabelos longos é uma desses padrões. Como ter cabelo longo, cacheado? Às vezes seus fios não terão cachos perfeitos de Camila Pitanga em comercial de Shampoo.

Então ele dizia: gosto de você assim de cabelo liso e comprido… Então oprimi meus cabelos por amor a um homem. Hoje eu posso dizer: NÃO VALE A PENA!

Uma pessoa pode sim ser racista e se casar com uma pessoa negra… Hoje eu reconheço isso.

Machucou muito! Mas foi isso que me fez ver o quanto eu viva em opressão, o quanto eu não tinha boa auto-estima.

Depois que me separei, ainda por muito tempo não consegui me livrar desse peso opressor.

Comecei a afirmar para mim mesma que eu alisava meu cabelo por opção, mas não era. Opressão não é opção, é imposição.

A sociedade impõe padrões e se você sai fora… Você é torta, errada, desleixada…

Depois te tantos anos de opressão eu resolvi me libertar.

Comecei a deixar meu cabelo crescer e não voltei mais ao salão para fazer progressiva. Fiquei com ele assim por vários meses. Ficava na frente do espelho e imaginava como seria tê-lo curto e crespo, ficava imaginando como o meu Dono (já que sou submissa) iria reagir a isso. Comecei a pesquisar sobre o assunto, e procurei cortes de cabelo para cacheadas, nisso descobri vários vlogs de meninas que relatavam suas experiências. Descobri o BIG CHOP… E resolvi que iria fazer – o grande corte. Falei com o Dono, expliquei para ele os motivos e ele aceitou. Confesso que me surpreendeu, não esperava isso dele… Mas as pessoas nos surpreendem para o mal e para o bem!

Mas a auto-afirmação não é fácil… A sociedade irá tentar te oprimir… Você vai se oprimir. Quando Você acorda e vê seu cabelo curto, todo espetado para cima, você se pergunta por que fiz isso? Ai você lembra que fez isso pela sua história, que seu cabelo é uma arma política e social. Você lembra que por trás desses seus cabelos crespos existe uma história de opressão e humilhação – Escravidão! Meu cabelo crespo veio em um navio negreiro e eu não posso mudar isso. Por mais que eu alise meu cabelo, não posso apagar minha história e negar minhas raízes. Meu cabelo veio da África!

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